segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A mudança climática está aqui e agora e pode levar a um conflito mundial


(Seca no Sistema Cantareira, SP - foto de Cuca Jorge)

Nicholas Stern - The Guardian, 14-02-2014

As chuvas e tempestades recordes que trouxeram inundações em todo o Reino Unido são um sinal claro de que já estamos experimentando os impactos das mudanças climáticas.

Muitos comentaristas têm sugerido que estamos sofrendo condições meteorológicas extremas sem precedentes. Há razões poderosas para argumentar que isso é parte de uma tendência.

Quatro dos cinco anos mais úmidos registrados no Reino Unido ocorreram a partir do ano 2000. Durante esse mesmo período também tivemos os sete anos mais quentes.

Isso não é uma coincidência. Há um crescente número de evidências de que extremos diários de precipitação estão se tornando mais intensos, em linha com o que se espera a partir da física fundamental, como o Met Office ressaltou no início desta semana.
Uma atmosfera mais quente contém mais água. Adicione a isso o aumento do nível do mar, particularmente ao longo do Canal da Mancha, o que está aumentando as tempestades, e fica claro por que o risco de inundações no Reino Unido está aumentando.

Mas não é só aqui que os impactos das mudanças climáticas têm sido sentidos por meio de eventos meteorológicos extremos nos últimos meses. A Austrália acaba de ter seu ano mais quente jamais registrado, durante o qual sofreu ondas de calor recorde e incêndios graves em muitas partes do país. E tem havido mais calor extremo ao longo das últimas semanas.

A Argentina teve uma de suas piores ondas de calor no final de dezembro, enquanto o mesmo aconteceu em partes do Brasil e, outras, foram atingidas por inundações e deslizamentos de terra após chuvas recorde.

E as águas superficiais muito quentes do Pacífico Noroeste durante novembro passado alimentaram o Tufão Haiyan, o ciclone tropical mais forte a atingir terra firme em qualquer lugar do mundo, que matou mais de 5.700 pessoas nas Filipinas.

Este é um padrão de mudança global que seria muito imprudente ignorar.
O IPCC apontou em setembro passado para um padrão de mudança de condições climáticas extremas aparente desde 1950, caracterizado por mais ondas de calor e chuvas em muitas partes do mundo, enquanto a Terra se aqueceu em cerca de 0,7oC.

O mesmo IPCC concluiu de todas as evidências científicas disponíveis que é 95% provável que a maior parte do aumento da temperatura média global desde meados do século 20 é devido a emissões de gases de efeito estufa, desmatamento e outras atividades humanas.

A tendência de aumento da temperatura é inegável, apesar dos efeitos da variabilidade natural do clima que fazem com que a taxa de aquecimento se acelere ou retarde temporariamente em períodos curtos, como temos visto ao longo dos últimos 15 anos.

Se não cortarmos as emissões enfrentaremos consequências ainda mais devastadoras, que poderiam elevar a temperatura média global em 4oC ou mais acima dos níveis pré-industriais até o final do século XXI.

Isso seria muito acima do limiar de aquecimento de 2oC, que os governos dos países já concordaram que seria perigoso violar. A temperatura média não esteve 2oC acima dos níveis pré-industriais pelos 115 mil anos anteriores, quando as calotas de gelo eram muito menores e o nível global dos oceanos pelo menos cinco metros mais alto que hoje.

A mudança para um mundo assim poderia causar migrações em massa de centenas de milhões de pessoas para longe das áreas mais afetadas. Isso levaria a conflitos e guerras, não à paz e prosperidade.

Na verdade, os riscos são ainda maiores do que percebi quando trabalhei na revisão da economia das mudanças climáticas para o governo do Reino Unido em 2006. Desde então, as emissões anuais de gases de efeito estufa aumentaram fortemente e alguns dos impactos, tais como o declínio do gelo do mar Ártico, começaram a acontecer muito mais rapidamente.

Nós também subestimamos a importância potencial de retroalimentações fortes do sistema terrestre, como o degelo do permafrost que libera metano, um poderoso gás de efeito estufa, bem como pontos de inflexão além dos quais algumas mudanças no clima podem se tornar irreversíveis.

O que temos experimentado até agora certamente é pouco em relação ao que pode acontecer no futuro: lembremos que última vez que a temperatura global foi 5oC diferente da de hoje, o Planeta foi tomado por uma era do gelo.

Assim, os riscos são imensos e só podem ser sensivelmente manejados pela redução das emissões de gases de efeito estufa, o que exigirá uma nova revolução industrial de baixo carbono.

A história nos ensina quão rapidamente as transformações industriais podem ocorrer através de ondas de desenvolvimento tecnológico - tais como a introdução de energia elétrica - baseadas na inovação e descoberta.

Já estamos vendo tecnologias de baixo carbono serem implantadas em todo o mundo, mas mais progressos requererão investimento e enfrentamento dos preços reais da energia, incluindo aqueles gerados pelas emissões prejudiciais dos combustíveis fósseis.

Infelizmente o ritmo atual de progresso não é rápido o suficiente, com muitos países industrializados sendo lentos na transição para formas de crescimento econômico mais limpas e eficientes.

A falta de visão e vontade política dos líderes de muitos países desenvolvidos não apenas prejudica sua competitividade no longo prazo, como também coloca em risco os esforços de cooperação internacional e o novo acordo que deverá ser assinado em Paris, em dezembro de 2015.

Atraso é perigoso. Inação só poderia ser justificada se pudéssemos ter uma grande confiança de que os riscos colocados pelas alterações climáticas são pequenos. Mas isso não é o que 200 anos de ciência climática estão nos dizendo. Os riscos são enormes.

Felizmente países mais pobres, como a China, estão mostrando liderança e começam a demonstrar ao mundo como investir no crescimento de baixo carbono.

O Reino Unido deve continuar a ser um exemplo para outros países. A Lei de Mudanças Climáticas de 2008, que obriga o Reino Unido a reduzir suas emissões em pelo menos 80% até 2050, é considerada em todo o mundo um modelo de como os políticos podem criar o tipo de sinal necessário ao setor privado, que poderia gerar bilhões de Libras em investimento. O enfraquecimento da Lei seria um grande erro e prejudicaria o forte compromisso assumido por todos os principais partidos políticos.

Oscilações e mensagens inconsistentes de ministros, bem como a incerteza sobre as políticas de possíveis futuros governos, já estão minando a confiança das empresas. Riscos políticos induzidos pelo governo tornaram-se um sério obstáculo para o investimento privado.

Em vez disso, o Reino Unido deve trabalhar com o resto da União Europeia para melhorar a estrutura de mercado e a rede integrada de energia. Isso também aumentaria a segurança energética, reduziria custos e emissões. Qual melhor maneira para unificar a Europa?

O governo também terá que garantir que o país torne-se mais resiliente aos impactos da mudança climática que não podem mais serem evitados, inclusive, investindo maiores somas em defesa contra inundações.

Deve resistir a apelos de alguns políticos e partes da mídia para financiar a adaptação a mudança climática por meio de cortes à ajuda exterior. Seria profundamente imoral penalizar os 1,2 bilhões de pessoas que vivem em extrema pobreza ao redor do mundo.

Na verdade, o Reino Unido deve aumentar a cooperação com os países pobres para ajudá-los a se desenvolver economicamente em um clima que está se tornando mais hostil em grande parte por causa das emissões passadas dos países ricos.

Uma maneira muito mais sensata de arrecadar dinheiro seria implantar um preço alto sobre a poluição por gás de efeito estufa em toda a economia, o que também ajudaria a reduzir as emissões. É essencial que o governo aproveite esta oportunidade para fomentar a onda de desenvolvimento tecnológico de baixo carbono e a inovação que vai impulsionar o crescimento econômico e evitar os enormes riscos da mudança climática não gerenciada.

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Nicholas Stern é presidente do Grantham Research Institute on Climate Change and the Environment da LSE e presidente da Academia Britânica.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Energia polêmica: a ANP e o fracking


O que você acha de empregar em larga escala uma tecnologia controversa e potencialmente contaminante dos recursos hídricos para aumentar a produção de gás natural? E fazer isto dentro de um contexto institucional no qual não há experiência na lida com os reais impactos do processo? E sem ter uma legislação clara que obrigue a avaliação de impactos antes da exploração?

Pois é isto o que a Agência Nacional de Petróleo fará amanhã e depois de amanhã, dias 28 e 29/11/2013, quando leiloará 240 blocos de exploração terrestre de gás natural nos estados amazônicos do Acre, Amazonas, Tocantins e Maranhão, nos estados nordestinos de Alagoas, Sergipe, Piauí e Bahia, no Mato Grosso e em Goiás, no centro oeste, em São Paulo, no sudeste, e no Paraná, no sul. Nos blocos da Bahia, Sergipe, Alagoas e no São Francisco, a ANP espera encontrar o gás de folhelho, gás natural preso em rochas que é extraído por meio da polêmica técnica de faturamento hidráulico (fracking), muito utilizada nos EUA, mas vetada em países como França e Bélgica por seus potenciais impactos ambientais.

Uma avaliação da Agência Internacional de Energia apontou que o Brasil pode ter seis trilhões de metros cúbicos de gás de folhelho recuperáveis. A ANP calcula que, entre reservas recuperáveis de gás natural convencional e de folhelho, o país deve ter mais de 10 trilhões de metros cúbicos. Se isto se confirmar as reservas brasileiras passariam ao sexto lugar em volume no mundo, abaixo somente da Rússia, Irã, Qatar, Turcomenistão e EUA.

Na técnica de fracking são perfurados poços verticais até as camadas de folhelho. Nestas profundidades a perfuração passa a ser feita horizontalmente e nestes poços é injetado sob pressão um liquido composto de água, areia e produtos químicos. Quando a rocha se rompe e libera o gás, este líquido retorna à superfície junto com o gás natural carregando contaminantes como hidrocarbonetos, metais e os produtos químicos injetados. Estes efluentes contaminados pelo processo devem então ser armazenados e tratados para que possam ser dispostos adequadamente. Em alguns casos, nos EUA, a autoridade ambiental permite que os efluentes sejam injetados em poços profundos de bacias sedimentares. Para se mitigar a contaminação dos lençóis freáticos e dos aquíferos subterrâneos pelo fracking se injeta cimento nas paredes do poço.

Como toda operação industrial e mineradora o fracking apresenta riscos e tem impactos socioambientais: pode contaminar as águas superficiais, dos lençóis freáticos e dos aquíferos profundos com os produtos químicos utilizados no processo; pode aumentar nestes lençóis e aquíferos a concentração de metano, metais pesados e materiais radioativos; emprega grandes quantidades de água que, em parte, se tornam irrecuperáveis ou fortemente contaminadas; em regiões de escassez hídrica pode criar pressões sociais e ambientais importantes em escala local e regional; e pode contaminar o solo por eventuais vazamentos dos efluentes. Por estas razões a técnica é alvo constante de críticas de comunidades afetadas e de ambientalistas.

Por que então tem-se investido tanto nisso, principalmente nos EUA? A resposta é econômica, claro. O gás natural produzido por fracking tem provocado uma grande transformação na matriz energética dos EUA por seu baixo preço, tão grande que tem sido reputada como um dos principais fatores impulsionadores da recuperação econômica daquele país. O gás afastou da matriz energética norte americana uma parcela importante do carvão mineral anteriormente utilizado para geração elétrica, reduzindo significativamente as emissões de gases de efeito estufa deste que é o segundo maior emissor global destes gases. Porém, mesmo nos EUA, nem tudo é positivo: embora reduza as emissões quando comparado ao carvão, o metano componente do gás natural é também um importante gás de efeito estufa e pesquisas recentes mostram que vazam quantidades significativas deste gás à atmosfera durante as operações de extração. Além disso, grande parte dos poços tem apresentado quedas vertiginosas na produção do gás natural em poucos anos de extração. E os potenciais impactos têm se mostrado reais em muitos casos.

No Brasil o leilão da ANP acontecerá sem que tenhamos uma marco regulatório claro sobre como as explorações devem ocorrer. E sem sabermos muito sobre os riscos socioambientais da extração deste gás não convencional nas condições brasileiras, como foi declarado pela Sociedade Brasileira pelo Progresso da ciência. A SBPC e outras organizações da comunidade científica e da sociedade civil organizada, entre elas o Vitae Civilis, manifestaram-se contra o leilão nos seus pareceres submetidos à consulta pública feita pela ANP. Organizações técnicas e profissionais ligadas às áreas de meio ambiente e de serviços de água e saneamento protocolaram uma carta aberta à presidente Dilma Rousseff solicitando a retirada da exploração de gás não convencional do edital destas licitações.

De um ponto de vista mais estratégico, o governo brasileiro deve responder sobre como pretende harmonizar suas metas de redução de emissão de gases de efeito estufa para 2020 com mais este sinal de sua franca disposição em sujar a matriz energética brasileira com carbono fóssil. Não somos os EUA que tem uma matriz preponderantemente fóssil e com grande participação do carvão, na qual a entrada de mais gás natural reduz as emissões de gases de efeito estufa, ao menos temporariamente. Não, ainda temos uma das matrizes energéticas mais renováveis do mundo. Nesta, a entrada de grandes volumes de gás natural para geração elétrica, a qual aparenta ser o destino mais provável do gás a ser extraído, aumentará nossas emissões, as mesmas que prometemos reduzir em mais de 35% até 2020. Com os investimentos no pré sal e, agora, na exploração do gás natural em terra, ficará difícil cumprir as metas e contribuir para a mitigação da crise climática global.

Continuamos pedindo à ANP que suspenda este leilão até que as questões socioambientais que têm sido levantadas sejam equacionadas, se isto for possível.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Sobre mudanças climáticas, desastres nucleares e geoengenharia


Robin Hahnel: continuar a queimar combustíveis fósseis é desastre certo, mas a rápida expansão da energia nuclear não é solução.

Em 3 de novembro James Hansen se juntou a outros cientistas na assinatura de uma carta aberta dirigida a organizações ambientais, instando-as a demonstrar “real preocupação com os riscos da crise climática e convocar ao desenvolvimento e à implantação da energia nuclear avançada”.

Como Hansen e alguns outros notáveis ambientalistas de longa data que recentemente saíram em apoio à energia nuclear, eu também estou desesperado. Como eles, sei que temos muito pouco tempo para impulsionar o maior “re-boot” tecnológico da história da humanidade, que deve transformar a base fóssil da economia em uma nova base renovável e eficiente, antes que seja demasiado tarde. É por isso que enviei minha própria carta aberta aos movimentos por justiça climática que costumam argumentar que o capitalismo verde é uma contradição e a mudança climática só pode ser resolvida pela mudança do sistema econômico. Em minha opinião aqueles que assim argumentam não têm noção de tempo. Não têm noção de quão rápido poderá chegar a mudança climática irreversível em comparação com o tempo que precisaríamos para mobilizar apoio à mudança do sistema econômico. Mas acho triste que pessoas como Hansen estejam promovendo a energia nuclear quando não precisamos de tecnologias novas ou perigosas para resolver o problema.

O problema com projetos de geoengenharia - como o lançamento de aerossóis de dióxido de enxofre à atmosfera ou a fertilização do oceano com limalha de ferro - é que estes não são comprovados e são altamente arriscados. E se a história da experimentação humana de pequena escala serve de guia, devemos antecipar que uma tentativa de evitar a mudança climática através da geoengenharia em escala global pode ter consequências imprevisíveis e desastrosas. Com grande probabilidade o foco em geoengenharia se revelará infrutífero e nos distrairá de soluções banais que sabemos funcionar.

No entanto, ao contrário dos projetos de geoengenharia, para os quais as consequências no longo prazo são altamente imprevisíveis, as consequências no longo prazo de basearmos o sistema global de energia na fonte nuclear são totalmente previsíveis. Enquanto a geoengenharia apresenta perigos desconhecidos, é muito fácil saber quais perigos espreitam um futuro nuclear, basta perguntar aos residentes das proximidades de Fukishima. A energia nuclear é a epítome easy going da geração atual que se recusa a resolver um problema que poderia ser solucionado hoje por meios seguros, em vez chutar o desastre à frente para nossos filhos ou netos. Claro que também é uma forma das grandes corporações internacionais transformarem uma crise (em grande parte de sua própria responsabilidade) em uma nova fonte de lucros inflados pelo gasto público. Se não fosse este o caso, difícil seria imaginar uma discussão séria sobre a “solução nuclear”.

Em uma situação na qual a velocidade é essencial, por que devemos discutir usinas nucleares que levam mais tempo para serem colocadas na rede do que o necessário para expandir a produção de energia renovável, para não falar de quão rapidamente poderíamos aumentar a eficiência energética? Como disse Naomi Oreskes em sua resposta à carta de Hansen: “Como muitos cientistas e engenheiros ilustres anteriormente, eles estão exagerando nas promessas da energia nuclear, e subestimando os riscos. Esta não foi a tecnologia miraculosa que seus defensores imaginaram na década de 1950, e continua sendo uma das nossas fontes mais caras de energia elétrica” (New York Times, 15/11/2013). A energia nuclear tem um histórico perfeito em somente uma área – seus enormes custos adicionais. E só por limitar os custos dos danos de um desastre nuclear, como faz o governo dos EUA por meio do Price Anderson Act, ou simplesmente ignorar quem vai pagar pelos danos, como outros governos que adotaram a energia nuclear fazem, é que a energia nuclear é capaz de competir no mercado com outras formas de energia.

Mas o ponto importante é que em algum momento um sistema global de energia totalmente nuclearizado vai criar um desastre nuclear, se este não estiver sendo gestado neste momento no Japão. E a tragédia é que isto não é necessário. Alternativamente, precisamos reunir a vontade política para fazermos duas coisas para responder a uma crise que ameaça a civilização como a conhecemos.

1ª) Colocar um alto preço sobre o carbono para desencorajar o consumo de combustíveis fósseis. Zhao Zhong bateu no ponto em sua resposta à carta Hansen: “A coisa mais importante a fazer é colocar um preço elevado, ou um teto rígido, sobre as emissões de carbono de modo a tornar os combustíveis fósseis menos atraentes quando comparados a outras fontes de energia. Se o preço do carvão e dos outros combustíveis fósseis incluísse todos os seus verdadeiros custos, imediatamente todas as alternativas aos combustíveis fósseis se tornariam mais competitivas e inovações no setor de energia limpa seriam provocadas” (New York Times 15/11/2013).

2ª) Lançamento de um programa governamental na escala dos que foram implantados durante a Segunda Guerra Mundial para mudar as prioridades de produção, expandir fontes renováveis de energia e aumentar drasticamente a conservação de energia. Quando nazistas alemães, fascistas italianos e militaristas japoneses ameaçaram o ocidente, os aliados e a União Soviética provaram serem capazes de transferir recursos de diversos setores da economia para a produção de armas com uma rapidez impressionante. A mudança climática é uma ameaça para a civilização tão grande, e merece uma resposta tão maciça quanto. Em suma, os obstáculos para a prevenção da crise climática são políticos e não técnicos, e a solução, também, é política e não técnica.

Enquanto sigo pouco impressionado com argumentos que prescrevem depositarmos nossas esperanças em alguma “solução técnica”, existem alguns argumentos “técnicos” que me impressionam. Acho bastante convincentes as evidências apresentadas por aqueles que defendem a capacidade das tecnologias existentes em melhorar a eficiência energética em até 80%. Evidentemente, sou cético em relação a alegações de que a maioria dessas medidas de eficiência energética já é rentável, porque se há algo em que confio nos capitalistas é sua motivação em implantar mudanças que reduzam custos e aumentem lucros. Mas estou muito otimista quanto às consequências de colocarmos um preço sobre as emissões de carbono em qualquer lugar perto das estimativas razoáveis do dano que causam. Isto imediatamente induziria projetos de conservação de energia suficientemente rentáveis que aumentariam rapidamente a eficiência energética em cinquenta se não oitenta por cento. A maioria das medidas de conservação de energia não é de alta tecnologia, e já sabemos que estas são extremamente eficientes, porque os benefícios sociais superam largamente os custos sociais de implantá-las.

E quanto ao argumento de que é preciso ampliar as fontes nucleares porque as energias renováveis apresentam um “problema de intermitência”, ou seja, o momento de produção de energia a partir de fontes renováveis pode não coincidir com o ritmo das necessidades de consumo de energia? Ironicamente, os alemães descobriram que exatamente o oposto é verdadeiro. O problema do nuclear não é apenas ser uma fonte cara, mas é também a necessidade de operá-la em alta capacidade o tempo todo para cobrir os altos custos fixos. Isso significa que muita potência será redundante durante períodos de sol forte ou produção de energia eólica. Os alemães, que têm expandido a energia eólica mais rápido do que qualquer outra país, descobriram que a acelerada retirada de cena da energia nuclear não só é compatível como dá um grande impulso às energias renováveis.

Além disso, os problemas de intermitência das fontes renováveis não podem ser uma razão para adiar cortes de combustíveis fósseis. Isto porque nós podemos aumentar a eficiência energética muito mais rapidamente do que podemos incorporar energia renovável à rede. Não há nenhuma razão para não começarmos a eliminação gradual dos combustíveis fósseis imediatamente. Precisamos de tempo para desenvolver novas tecnologias na área de armazenamento de energia e, também, precisamos de tempo para redesenhar as redes elétricas de modo a lidar melhor com os problemas de intermitência que as energias renováveis trazem. Mas o aumento da eficiência energética por meio de tecnologias conhecidas pode facilmente comprar todo o tempo que precisarmos. O resto se reduz a reunir vontade política suficiente para avançar.

Continuar a queimar combustíveis fósseis é desastre certo. Mas a rápida expansão da energia nuclear também é desastre certo em algum ponto futuro do caminho. Three Mile Island? Chernobyl? Fukushima? Quantas vezes Deus deu a Noé o sinal do arco-íris? Ainda não chegamos ao ponto do “game over”. Mas logo chegaremos se não formos capazes de afastar a indústria de combustíveis fósseis e seus protetores políticos para fora do nosso caminho, arregaçar as mangas e enfrentar o desafio histórico de prevenir as mudanças climáticas induzidas pelo homem por meio de tecnologias conhecidas e seguras.

Para qualquer um que queira saber se tudo isso pode ser feito ao mesmo tempo em que se percorre o longo caminho de substituição do nosso sistema econômico ambientalmente destrutivo e impulsionado pela concorrência e pela ganância por um sistema sustentável e de cooperação equitativa, a resposta é: claro que podemos. E a experiência fortalecedora de dar resposta eficaz e justa à crise climática, aqui e agora, tornará mais visível a mais pessoas que podemos e devemos fazê-lo.

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Este artigo foi licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution - Share Alike 3.0. em 19/11/2013

Robin Hahnel é professor emérito do departamento de economia da American University e autor de vários livros, incluindo Green Economics: Confronting the Ecological Crisis; Economic Justice and Democracy: From Competition to Cooperation (Paths for the 21st Century); e Of the People, by the People.

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James Hansen:



quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Como a ciência está nos convocando à revolta



(O artigo é da Naomi Klein (No Logo) publicado no New Statesman em 29/10/2013. Eu traduzi. A foto é do Mario Schemberg. Os físicos vão saber porque foi adicionada aqui. Se estivesse vivo estaria nas ruas.)

Em dezembro de 2012 o pesquisador de sistemas complexos Brad Werner, de cabelos rosa, fez o seu caminho através da multidão de 24 mil cientistas da Terra e do Espaço no Encontro de Outono da União Geofísica Americana, realizado anualmente em San Francisco. A conferência daquele ano tinha participantes de renome como Ed Pedra, do projeto Voyager (Nasa), expondo um novo marco no caminho ao espaço interestelar, e o cineasta James Cameron, discutindo suas aventuras em submersíveis de profundidade.

Mas era a sessão de Werner que estava criando barulho; era intitulada “A Terra está F***da?” (Is Earth F**ked? Dynamical Futility of Global Environmental Management and Possibilities for Sustainability via Direct Action Activism).

Em pé na frente da sala de conferência, o geofísico da Universidade da Califórnia em San Diego guiou a multidão através do modelo computacional avançado que usara para responder à pergunta. Falou das fronteiras do sistema, de perturbações, dissipação, atratores, bifurcações e um monte de coisas em grande parte incompreensíveis para aqueles de nós não iniciados na teoria de sistemas complexos. Mas o resultado foi claro o suficiente: o capitalismo global fez da depleção de recursos algo tão rápido, prático, conveniente e sem barreiras que os “sistemas Terra-Humanidade” estão se tornando perigosamente instáveis. Ao ser pressionado por um jornalista por uma resposta clara sobre “estarmos f***dos?”, Werner deixou o jargão de lado e respondeu: “Mais ou menos”.

Há uma dinâmica no modelo, no entanto, que oferece alguma esperança. Werner classificou-a de “resistência”: movimentos de “pessoas ou grupos de pessoas” que “adotam um determinado conjunto de dinâmicas que não cabem dentro da cultura capitalista”. De acordo com o resumo de sua apresentação, isso inclui “ação direta ambiental e a resistência a partir de fora da cultura dominante, como em protestos, bloqueios e sabotagens por povos indígenas, operários, anarquistas e outros grupos ativistas”.

Reuniões científicas sérias geralmente não incluem chamadas das massas à resistência política e, muito menos, à ação direta e à sabotagem. Mas Werner não exatamente clamava por isto. Ele apenas observava que levantes massivos – como o abolicionista, o movimento pelos direitos civis ou o Occupy Wall Street – são a mais provável força de atrito capaz de desacelerar a máquina econômica que está fora de controle. Sabemos que os movimentos sociais do passado “tiveram enorme influência sobre... como a cultura dominante evoluiu”, ressaltou. Então, é lógico que, “se nós estamos pensando sobre o futuro da Terra, e o futuro de nossa união com o meio ambiente, temos que incluir a resistência como parte dessa dinâmica”. E isso, Werner argumentou, não é uma questão de opinião, mas “realmente um problema de geofísica”.

Muitos cientistas têm sido motivados pelos resultados de suas pesquisas a agir nas ruas. Físicos, astrônomos, médicos e biólogos têm estado na vanguarda dos movimentos contra armas e energia nuclear, guerra, contaminação química e criacionismo. E em novembro de 2012, a Nature publicou um comentário do financista e filantropo ambiental Jeremy Grantham incitando cientistas a aderirem a esta tradição e “serem presos se for necessário”, porque a crise climática “não é apenas a crise das suas vidas – é também a crise de existência da nossa espécie”.

Alguns cientistas não necessitam convencimento. O padrinho da ciência do clima moderna, James Hansen, é um ativista formidável, tendo sido preso meia dúzia de vezes por permanecer no topo de montanhas de carvão resistindo à remoção ou em frente à construção de gasodutos de gás de xisto (ele deixou seu trabalho na Nasa este ano, em parte, para ter mais tempo para o ativismo). Dois anos atrás, um dos 166 que foram algemados no lado de fora da Casa Branca em uma manifestação contra o gasoduto Keystone XL, foi o glaciologista Jason Box, um especialista de renome mundial no derretimento do gelo que recobre a Groenlândia. “Eu não conseguiria manter minha autoestima se não fosse”, disse Box na ocasião, acrescentando que “só votar não parece ser o suficiente neste caso. Preciso ser um cidadão também”.

Isso é louvável, mas o que Werner está fazendo com sua modelagem é diferente. Ele não está dizendo que sua pesquisa o levou a tomar medidas para parar uma determinada política, mas que sua pesquisa mostra que todo o nosso paradigma econômico é uma ameaça à estabilidade ecológica. E, de fato, que desafiar este paradigma econômico – por meio de movimentos de massa e de contrapressão – é o melhor que a humanidade pode fazer para evitar a catástrofe.

Isso é pesado. Mas ele não está sozinho. Werner faz parte de um grupo pequeno, mas cada vez mais influente, de cientistas cujas pesquisas sobre a desestabilização dos sistemas naturais – particularmente do sistema climático – os está levando a conclusões igualmente transformadoras, revolucionárias até. E para qualquer revolucionário que ainda não saiu do armário e que jamais sonhou em derrubar a atual ordem econômica em favor de outra um pouco menos propensa a levar aposentados italianos a acorrentarem-se em suas casas para evitar perde-las, este trabalho deve ser de particular interesse. Porque ele faz com que a transformação deste sistema cruel em favor de algo novo (e talvez, com muito trabalho, melhor) não é mais uma questão de preferência ideológica, mas sim uma necessidade existencial da espécie.

Uma liderança deste grupo de novos cientistas revolucionários é Kevin Anderson, um dos principais especialistas em clima da Grã-Bretanha e vice-diretor do Tyndall Centre for Climate Change Research, grupo que rapidamente se estabeleceu como uma das principais instituições de pesquisa climática do Reino Unido. Dirigindo-se a todos, do Department for International Development à Câmara Municipal de Manchester, Anderson passou mais de uma década pacientemente traduzindo as implicações da ciência climática para políticos, economistas e ativistas. Em linguagem clara e compreensível, ele estabeleceu um rigoroso mapa do caminho para a redução de emissões, que fornece uma possibilidade decente para a manutenção da elevação da temperatura global em menos de 2°C, uma meta definida pela maioria dos governos do mundo para que seja evitada uma catástrofe climática.

Mas nos últimos anos os trabalhos e palestras de Anderson tornaram-se mais alarmantes. Sob títulos como “Mudanças climáticas: indo além do perigoso... números brutais e tênue esperança” ele afirma que as chances de permanecermos dentro de níveis de temperatura seguros estão diminuindo rapidamente.

Com sua colega Alice Arcos, uma especialista em mitigação das mudanças climáticas do Centro Tyndall, Anderson mostra que perdemos tanto tempo com protelações e políticas climáticas frágeis – enquanto o consumo global (e as emissões) inflavam – que estamos agora frente à necessidade de cortes tão drásticos que chegam a desafiar a lógica econômica de priorização do crescimento do PIB acima de tudo.

Anderson e Bows informam-nos que a meta de mitigação frequentemente citada para o longo prazo – corte de 80% das emissões de 1990 até 2050 – foi selecionada puramente por razões de conveniência política e "não tem base científica". Isso porque os impactos do clima não vêm apenas do que emitimos hoje e amanhã, mas das emissões cumulativas que permanecem na atmosfera ao longo do tempo. Eles alertam que, ao perseguirmos metas para três décadas e meia– e não o que podemos fazer para reduzir brusca e imediatamente as emissões de carbono – corremos sério risco de permitir contínuos aumentos de emissões nos próximos anos e de consumir fatia grande demais do nosso “orçamento de carbono de 2°C”, colocando-nos, assim, em uma posição impossível no final do século.

É por isso que Anderson e Bows argumentam que, se os governos dos países desenvolvidos quiserem seriamente alcançar a meta já acordada de manutenção do aquecimento global abaixo dos 2°C, e se é para respeitar alguma equidade nas reduções de emissão (basicamente: que os países que têm vomitado carbono durante a maior parte dos últimos dois séculos cortem antes dos países que ainda têm mais de um bilhão de pessoas sem energia elétrica), então as reduções precisam ser muito mais profundas, e precisam vir muito mais cedo.

Mesmo para termos 50% de chance de permanecermos dentro dos 2°C de aquecimento (temperatura que já envolve enfrentar uma série de impactos climáticos extremamente prejudiciais), os países industrializados precisam começar a cortar suas emissões de gases de efeito estufa em algo parecido a 10% ao ano – e precisam começar agora. Mas Anderson e Bows vão mais longe, apontando que este objetivo não pode ser satisfeito com a variedade de ações como a colocação de uma taxa modesta sobre o carbono emitido ou adoção das tecnologias verdes geralmente defendidas por grandes grupos ambientais. Estas medidas ajudarão, com certeza, mas simplesmente não serão suficientes: a queda de 10% nas emissões, ano após ano, é praticamente sem precedentes desde que começamos a alimentar as nossas economias com carvão. Na verdade, cortes acima de 1% ao ano “têm sido historicamente associados à recessão econômica ou à agitação”, como afirmou o economista Nicholas Stern em seu relatório de 2006 para o governo britânico.

Mesmo no período que se seguiu ao colapso da União Soviética reduções de emissões desta monta e duração não aconteceram (os países ex-soviéticos experimentaram reduções médias anuais de cerca de 5% ao longo de um período de dez anos). Também não aconteceram depois da queda de Wall Street de 2008 (países ricos experimentaram uma queda de 7% em suas emissões de CO2 entre 2008 e 2009, mas estas recuperaram-se com entusiasmo em 2010, enquanto as emissões na China e Índia continuaram a subir). Foi só no rescaldo do grande crash de 1929 que os EUA viram quedas de emissão durante vários anos consecutivos em mais de 10% ao ano, de acordo com dados históricos do Carbon Dioxide Information Analysis Centre. Mas esta foi a pior crise econômica dos tempos modernos.

Se quisermos evitar esse tipo de carnificina e atender às metas de emissões baseadas na ciência, a redução de carbono deve ser administrada cuidadosamente através do que Anderson e Bows descrevem como “estratégias de decrescimento radicais e imediatas nos EUA, na UE e em outros países ricos”. O que é aceitável, só que temos um sistema econômico que faz do crescimento do PIB um fetiche independente de consequências humanas ou ecológicas, e no qual uma classe política neoliberal abdicou absolutamente da sua responsabilidade em gerir qualquer coisa (já que o mercado é o gênio invisível ao qual tudo deve ser confiado).

Então, o que Anderson e Bows realmente estão dizendo é que ainda há tempo para evitar um aquecimento catastrófico, mas não dentro das regras do capitalismo como estas estão atualmente construídas. O que pode ser o melhor argumento que já tivemos para mudar estas regras.

Em um ensaio de 2012 publicado na influente revista científica Nature Climate Change, Anderson e Bows fizeram um tipo de desafio e acusaram muitos de seus colegas cientistas de não apresentarem honestamente o tipo de mudança que as mudanças climáticas demandam da humanidade. Por isso vale a pena citar a dupla extensamente:

“... no desenvolvimento de cenários de emissões os cientistas, repetida e severamente, subestimam as implicações de suas análises. Quando se fala de evitar um aumento de 2°C, “impossível” é traduzido para “difícil, mas factível”, enquanto que “urgente e radical” aparece como “desafiador” – tudo para apaziguar o deus da economia (ou, mais precisamente, das finanças). Por exemplo, para evitar a ultrapassagem de taxas máximas de redução de emissões ditadas por economistas, picos iniciais impossíveis de redução nas emissões são assumidos, juntamente com noções ingênuas sobre “grande engenharia” e taxas de implantação de infraestrutura de baixo carbono. E mais perturbador, como os orçamentos de emissão diminuem, mais e mais geoengenharia é proposta de modo a garantir que o ditado pelos economistas continue inquestionado. Em outras palavras, a fim de parecer razoável dentro dos círculos econômicos neoliberais, os cientistas foram dramaticamente atenuando as implicações de suas pesquisas. Em agosto de 2013, Anderson estava disposto a ser ainda mais contundente, escrevendo que não havia mais como navegar o barco na mudança gradual. “Talvez no momento da Cúpula da Terra em 1992, ou mesmo na virada do milênio, os níveis de mitigação exigidos para os 2°C de aquecimento máximo poderiam ter sido alcançados por meio de mudanças evolutivas significativas dentro da hegemonia política e econômica. Mas a mudança climática é uma questão cumulativa! Agora, em 2013, nós das nações (pós-) industrializadas de alta emissão enfrentamos uma perspectiva muito diferente. Nossa contínua e coletiva libertinagem com o carbono desperdiçou toda e qualquer oportunidade de “mudança evolutiva” que tenha sido oferecida pelo inicial e maior orçamento de carbono de 2°C que tínhamos. Hoje, após duas décadas de blefes e mentiras, o que nos resta de orçamento de carbono para os 2°C requer mudança revolucionária da hegemonia política e econômica”.

Nós não deveríamos estar surpresos por alguns cientistas climáticos estarem um pouco assustados com as implicações radicais da sua própria investigação. A maioria deles foi discretamente fazendo seu trabalho medindo amostras de gelo, rodando modelos climáticos globais e estudando a acidificação do oceano, apenas para descobrir, como o especialista em clima australiano Clive Hamilton diz, que “foram desestabilizar involuntariamente a ordem política e social”.

Mas há muitas pessoas que estão bem conscientes da natureza revolucionária da ciência do clima. É por isso que alguns dos governos que decidiram enterrar seus compromissos climáticos em favor de desenterrar mais carbono tiveram que encontrar maneiras cada vez mais brutais para silenciar e intimidar os cientistas de suas nações. Na Grã-Bretanha, esta estratégia está se tornando mais evidente com Ian Boyd, o conselheiro científico chefe do Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais, escrevendo recentemente que os cientistas devem evitar “sugerir que políticas públicas são certas ou erradas” e devem expressar suas opiniões “trabalhando com assessores de governo, e sendo a voz da razão, em vez de dissidência, na arena pública”.

Se você quer saber onde isso leva, confira o que está acontecendo no Canadá, onde moro. O governo conservador de Stephen Harper tem feito um trabalho tão eficaz no sentido de silenciar cientistas e fechar projetos de pesquisa importantes que, em julho de 2012, alguns milhares de cientistas e simpatizantes realizaram um falso funeral em Parliament Hill, Ottawa, lamentando “a morte das evidências”. Seus cartazes diziam: “Nenhuma ciência, nenhuma evidência, nenhuma verdade”.

Mas a verdade se difunde de qualquer maneira. O fato da busca usual de lucros e crescimento estar desestabilizando a vida na Terra já não é algo que temos de ler em revistas científicas. Os primeiros sinais estão se revelando diante dos nossos olhos. E um número crescente de nós está respondendo adequadamente: bloqueando o fracking em Balcombe, interferindo nos preparativos de perfuração em águas russas do Ártico (a um custo pessoal enorme), levando operadores de areias betuminosas ao tribunal pela violação da soberania indígena e inúmeros outros atos de resistência grandes e pequenos. No modelo de computador de Brad Werner, este é o “atrito” necessário para desacelerar as forças de desestabilização. O grande o ativista do clima Bill McKibben chama estas forças de “anticorpos” se levantando para lutar contra a febre induzida do planeta.

Não é uma revolução, mas é um começo. E talvez possa nos comprar tempo suficiente para descobrir uma maneira de viver neste planeta menos f***do.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Sobre neoliberalismos, desenvolvimentismos e ambientalismos

Polêmica recente entre Dilma e Marina aponta necessidade de mais governo

Marina Silva criticou a politica econômica de Dilma Roussef dizendo que seu governo abandonou o “tripé econômico” adotado desde o governo FHC. Dilma rebateu dizendo que nunca abandonou a geração de superávits primários nas contas públicas, o regime de câmbio flutuante e as metas para a inflação. Aproveitando o bate boca, o jornalista Luis Nassif publicou uma peça política muito precisa (As peças do jogo no discurso velho-novo de Marina Silva), mas que, infelizmente, quando se refere ao discurso ambientalista, segue o senso comum e descuida-se da ciência e do contexto planetário no qual a economia internacional se desenvolve.

Nassif criou um discurso utopista para o ambientalismo (“... os sonhos do silvícola sendo abastecido unicamente pela mãe natureza”) para logo contestá-lo: “É evidente que a nova utopia não responde a questões básicas: como dividir a renda, sem que ela cresça?... Inclusão significa levar energia a todos os lares. Como casar o ambientalismo radical de Marina, que só acredita na energia dos ventos e do sol, com as necessidades dos mais pobres? Como garantir empregos melhores, sem um aprimoramento da industrialização, dos serviços?”.

Nassif diz ainda que o novo discurso de Marina, que seria influenciado por André Lara Resende, cria “uma situação curiosa, que acaba juntando os grandes investidores internacionais e os ambientalistas: o discurso anti-desenvolvimento”. Longe de defender o neoliberalismo econômico e o rentismo aos quais, ainda segundo Nassif, Marina Silva está se associando para construir um discurso oposicionista, me interessa desconstruir este falso entendimento do discurso ambientalista e lembrar algumas questões centrais para o futuro da nossa economia.

A ciência ambiental, a ciência climática e muitos outros ramos do conhecimento nos confrontam com limites reais ao crescimento econômico tal qual construído desde a revolução industrial. A economia baseada no consumismo, na energia abundante e barata e na exploração ilimitada dos recursos naturais vai se esborrachar contra o muro em poucos anos. Segundo artigo recente publicado na revista Nature, o clima global apresentará características totalmente fora das encontradas historicamente já entre 2047 e 2062. Preparando-se para isto, e já respondendo a mudanças correntes nas condições climáticas, governos de vários países constroem diques contra o avanço do mar, lutam contra catástrofes naturais cada vez mais frequentes e destrutivas, tentam adaptar suas economias a secas e enchentes fortíssimas que abalam a produção de alimentos, enfim, buscam adaptar suas economias e infraestrutura à crise climática.

Desde 1989 cientistas de todo o mundo têm dado a receita de enfrentamento desta que é a principal crise global: reduzir drasticamente as emissões de gases de efeito estufa, o que se pode fazer, principalmente, por meio da redução do consumo global de petróleo, carvão e outros combustíveis fósseis.

Sucessivos governos brasileiros têm se posicionado claramente em relação ao assunto afirmando que a responsabilidade sobre as mudanças climáticas é comum a todos os países, mas diferenciada entre estes, na medida em que os industrializados têm contribuição acumulada maior para o problema. O governo Lula foi além e apresentou em 2009 em Copenhagen compromissos voluntários com metas de redução da emissão nacional destes gases para o ano 2020. Com isto Lula foi anti-desenvolvimentista?

Sem entrar na discussão da qualidade das metas apresentadas por Lula, seu governo anteviu o que nem Nassif nem Dilma conseguem ver: que o contexto econômico global criado pelas questões ambientais globais e seus desdobramentos correntes sobre a economia têm forte impacto também no Brasil, ao mesmo tempo em que apresentam grandes oportunidades para o país. Com suas grandes áreas disponíveis para a produção agrícola, suas fontes de energia renovável e programas de biocombustível, seu aço e alumínio de baixo conteúdo de carbono, seu enorme potencial de geração de energia pelo sol e pelo vento e sua gigantesca biodiversidade o Brasil tem condições de ser uma potência econômico-ambiental sem precedentes e sem concorrência internacional. Para o Brasil não há - ou há pouca - limitação ambiental ao crescimento necessário à suplantação da etapa de país de renda média de modo a levar sua população à inclusão econômica e social.

Parodiando cartazes das jornadas de junho, faltam-nos governos “padrão Fifa”. Para lembrar somente alguns dos problemas econômico-ambientais que temos e não foram enfrentados pelos anos de governo neoliberal nem pelos governos desenvolvimentistas recentes:
- falhamos em dar continuidade aos programas de etanol e biodiesel, mesmo tendo a maior eficiência global na produção destes produtos;
- deixamos praticamente toda a produção de soja brasileira se contaminar com sementes transgênicas contrabandeadas da Argentina, desprezando um possível valor de produto “prêmium” para, pelo menos, parte da nossa produção;
- exportamos a maior parte da soja que produzimos ainda em grão, perdendo a possibilidade de agregar valor pelo esmagamento e produção de proteína, óleo e outros derivados (esta oportunidade nem a Argentina deixou passar);
- destruímos parte importante da Amazônia sem termos um projeto estratégico para a região e sem termos conseguido desenvolver econômica e socialmente grande parte da população da região;
- deixamos correr solta a exploração ilegal de madeiras de qualidade superior na Amazônia sem termos conseguido criar uma cultura florestal e uma indústria de base florestal para a região;
- exportamos a granel grande parte dos minérios consumidos pelo mundo sem conseguirmos desenvolver indústrias relevantes de bens de consumo que empregam estes materiais e têm maior valor agregado;
- construímos cidades insustentáveis e desagradáveis e que oferecem péssima qualidade de vida para a maioria da nossa população.

O enfrentamento disto tudo precisa incorporar o discurso ambientalista, que não é necessariamente anti-desenvolvimentista, mas pró-desenvolvimento com governança adequada. Para superarmos os problemas listados (e muitos outros não listados) acima, precisamos de discursos que unam desenvolvimentismo, ambientalismo e um muito grande apetite de governo.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Árvores da Amazônia

Estudo publicado na Science calcula que a Amazônia abriga 390 bilhões de árvores de 16 mil espécies. O mais interessante é que 227 destas espécies foram classificadas como "hiperdominantes": 1,4% do total de espécies é responsável por metade de todas as árvores na Amazônia. No outro extremo, as 11.000 espécies mais raras representam apenas 0,12% do total de indivíduos. Um número desproporcional destas hiperdominantes são palmáceas, myristicaceae (ex: virola) e Lecythidaceae (ex: castanheira do pará, sapucaia, jequitibá, matamatá).

http://www.sciencemag.org/content/342/6156/1243092.abstract#aff-2

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Sobre a lacuna na pesquisa em energia e a crise climática

(Andrew C. Revkin – Dot Earth)

1) Energia importa: a energia pode produzir suprimentos abundantes de água potável, permite a produção, armazenamento e distribuição de alimentos, a mobilidade, a conectividade, a saúde e o conforto.

2) Mesmo com a popularização de tecnologias e métodos de conservação de energia, um mundo que terá 9 bilhões de pessoas em busca de uma vida decente exigirá muito mais do recurso do que as fontes e os sistemas atuais podem proporcionar. E já existe uma escassez enorme de energia no planeta, com cerca de dois bilhões de pessoas sem o simples benefício da iluminação ou de uma fonte limpa de calor para cozinhar suas refeições.

3) Se países como China e Índia seguirem o padrão americano de transporte, o crescimento a jato resultante da demanda por petróleo está fadado a ser uma influência perturbadora nos assuntos mundiais, mesmo se não considerarmos o impacto climático de todas as emissões adicionais de gases de efeito estufa. Pense: os EUA, com 307 milhões (indo para 400 milhões) de pessoas, consome cerca de 20 milhões de barris por dia; a Índia, com mais de 1,1 bilhão de pessoas, por sua economia andar ainda em primeira marcha, consome 2,67 milhões de barris de petróleo por dia, enquanto as projeções apontam para um vasto aumento na demanda; adicione as projeções de uso de automóveis na China e você verá por que as escolhas correntes de combustível não se sustentam.

4) Se (parte da) a humanidade permanecer presa ao degrau-carvão da "escada de calor" de Loren Eiseley por outra geração, jogará com o risco inaceitável na direção de mudanças disruptivas de longa duração no clima por meio do acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera.

5) No entanto, se eu tivesse que escolher um entre os dois adesivos para o carro – CRISE CLIMÁTICA ou PESQUISA ENERGÉTICA – eu escolheria o segundo. Isso não significa que rejeite a ideia de que estamos diante de uma crise climática. Eu só não acho que essa frase é uma maneira produtiva de enquadrar o desafio, particularmente como definido nos últimos anos no acalorado debate político. A definição que eu escolheria é muito parecida com a feita por Richard Somerville, da Universidade da Califórnia em San Diego, durante um debate sobre o clima há vários anos: "O aquecimento global não é uma crise". Aqui está um pouco do que ele disse: para entendermos a frase “o aquecimento global não é uma crise”, devemos saber o que significa crise. A palavra não significa catástrofe ou alarmismo, mas um momento crucial ou decisivo, um ponto de mutação, um estado de coisas no qual uma mudança decisiva para melhor ou pior é iminente. Nós estamos falando sobre o futuro aqui. O mundo inteiro agora realmente tem uma escolha crítica a fazer entre continuar no atual caminho adicionando mais e mais dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa à atmosfera ou encontrar algum outro. Estamos falando do futuro e a ciência diz-nos que o caminho que escolhermos irá determinar que tipo de Terra nossos filhos e netos herdarão.

6) O mundo não está remotamente engajado em pesquisar as fontes de energia que seriam necessárias para preencher as lacunas definidas acima. Estou falando de uma busca contínua, da tomada de luz da casa à sala de reuniões, do laboratório à sala de aula, da cidade inteligente pós-industrial americana à luta (literalmente) impotente das aldeias subsaarianas. Esta não é uma tarefa onerosa, mas uma afirmação ativa e positiva de que as formas como geramos e usamos energia – um ativo há tempos tido como garantido e precificado de forma a mascarar os seus custos mais amplos – realmente importam. Lugares secos fazem isso com a água o tempo todo. Em Israel não há banheiro sem duas opções de descarga. Não é um conceito verdolengo, é apenas a maneira como as coisas são feitas.

Você já deve ter ouvido falar muito sobre uma revolução energética tardia que envolve uma explosão (temporária) de gastos em legislações de incentivo. Mas esta é construída a partir de uma base miserável de investimento público e privado na arena energética, na qual avanços realmente poderiam expandir o cardápio de fontes de energia necessárias para sustentar um Planeta saudável e uma humanidade próspera, mesmo em seus estirões de crescimento. Não estou dizendo que o investimento sustentado na investigação científica é remotamente suficiente, por si só, para conduzir uma transformação energética. Mas vejo os níveis de investimento em tais pesquisas como um proxy do nosso interesse geral na questão.

Basta olhar o gráfico demonstrativo de meio século de investimento norte americano em pesquisa científica básica (abaixo). Você pode ver a corrida espacial (amarelo) e a paixão pela investigação médica (azul). A banda verde, que representa quase todas as pesquisas em energia, tem a aparência de uma cobra que engoliu uma bola de softball durante a crise do petróleo.